Pernambuco é conhecido pelo carnaval, pelas belas praias e por suas ricas manifestações culturais. Agora, o estado também quer ser reconhecido por outro produto regional típico: o queijo artesanal. Um dos ícones da culinária nordestina, o item é parte da alimentação diária de muitos pernambucanos. O queijo manteiga e o queijo de coalho são as principais variedades produzidas na bacia leiteira do estado, localizada no Agreste Meridional. Na região são produzidos quase 2 milhões de litros de leite por dia, dos quais mais da metade é destinada à fabricação dos queijos.
Mas, de acordo com o produtor Romildo Albuquerque, que comanda a empresa de pequeno porte Leite Nobre, no município de Venturosa, a oferta de queijos artesanais em Pernambuco já supera a demanda. Para ele, é preciso começar a diversificar a produção. “Quanto mais abertura houver, dentro do possível, melhor. Porque se a gente começar a agregar novos produtos – uma ricota, uma bebida láctea, esse tipo de produto -, vai facilitar. A gente vai deixar de produzir aquele excesso de queijo existente, para produzir outro tipo de produto lacto, que não é permitido ainda.” Segundo Albuquerque, o excesso de produção se deve a entraves nas leis que regulam o setor e à sobra na oferta de leite na região, que sofre com a concorrência do produto em pó.
Na Alepe, tramita um projeto de lei que pode resolver o problema. De autoria do deputado Claudiano Martins Filho, do PP, a iniciativa propõe ampliar a gama de laticínios classificados como artesanais. O objetivo é dar a oportunidade às queijarias de ofertar novos produtos, viabilizando o aumento na economia do produtor e minimizando os impactos da queda do preço do leite.
Outra demanda dos produtores vem sendo tratada pela Adagro, a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária do Estado de Pernambuco. O Serviço de Inspeção Estadual da agência passou a integrar o Sisbi, Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal. Com isso, as indústrias de laticínios auditadas pela Adagro vão poder solicitar a adesão ao sistema para comercializar seus produtos em todo o Brasil. O presidente do órgão, Paulo Roberto Lima, considera a conquista importante. “Antes o produto pernambucano estava limitado ao estado de Pernambuco, e hoje vai ser comercializado em todo o país, e com isso vamos agregar valores e aumentar também o número de empregos nessas instituições.”
Mas a medida não atende aos produtores artesanais. Eles aguardam a regulamentação, pelo Executivo federal, do chamado Selo Arte, que vai garantir a comercialização desses produtos em outros estados. “Mas, mesmo saindo esse decreto, o Ministério da Agricultura vai deliberar sobre instruções normativas específicas para cada estado, porque tem as peculiaridades de alguns estados, como por exemplo, Pernambuco com relação a Minas e Paraíba.”
Essas peculiaridades do queijo pernambucano vêm sendo analisadas e compiladas em um documento por uma equipe de pesquisadores do Itep, Instituto de Tecnologia de Pernambuco, e do IPA, Instituto Agronômico de Pernambuco. O dossiê deve ser encaminhado ao INPI, Instituto Nacional de Propriedade Industrial, a fim de obter um selo de identificação geográfica do queijo de coalho do Agreste.
A indicação geográfica abrange uma série de informações sobre a forma de produção do queijo local, desde fatores humanos, como a história e o modo de fazer tradicional do alimento, até aspectos naturais, como as plantas utilizadas na dieta do gado leiteiro. O atual gestor do Centro Tecnológico de Laticínios do Itep, Benoit Paquereau, está à frente do projeto há vários anos. “Isso vai agregar valor ao produto e, automaticamente, vai também beneficiar os produtores envolvidos nesse processo.” Ele explica que este será um primeiro passo para a expansão do queijo pernambucano. “A associação que lidera o processo vai ter que verificar realmente que os seus associados estão cumprindo as regras pré-definidas, e vai ter que divulgar esses produtos, fazer todo um trabalho de comercialização e de marketing para poder informar o consumidor da qualidade desse produto e do diferencial que ele tem.”
Esse diferencial é o que marca o fazer artesanal do queijo artesanal do Agreste pernambucano, e representa um modo de vida de gerações de famílias que se dedicam à atividade no estado, como o produtor Romildo Albuquerque. “O queijo está no nosso DNA. Ele é pernambucano e ele é nosso. Então eu brigo muito pela classe, eu brigo muito pelo queijo. Pra mim, é um prazer muito grande poder ajudar e poder trabalhar com um produto que, eu digo, é um produto nobre.”
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